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A Onça e a Diferença

A ciência do urubu

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Si vous voulez apprendre de l’Indien, pourquoi les vautours jouent toujours un rôle si remarquable et pourquoi toujours ils les font monter, il vous répond d’un ton naïf: “Là-haut se trouve toute la science du vautour”. (P. C. van Coll)


UrubuLabrea.jpg


A Visita ao CéuEditar

Versão Tenetehara

Um homem que vivia sozinho encontrou um filhote fêmea de urubu-rei, que levou para casa e criou com muito cuidado. Ao ver o filhote tomar corpo, o homem dizia — “Se esse bicho fosse gente talvez pudesse fazer o que comer para mim. Quando eu voltasse da roça, acharia tudo pronto”. A jovem-urubu compreendia e ficava a olhar para ele. Certo dia, enquanto o Tenetehara trabalhava na roça, a jovem-urubu tirou o “vestido de penas” e apareceu tal qual uma mulher tenetehara. Preparou a comida e aguardou a chegada do Tenetehara, vestindo as penas logo que ele se aproximou da casa. O homem não conseguiu adivinhar quem lhe preparara a refeição. Isto se repetiu por alguns dias, até que, desconfiado, o homem falou que ia para a roça mas, ao invés disso, foi esconder-se próximo da casa. Ao ver que uma bonita mulher estava preparando a sua comida, aproximou-se com toda a cautela, descobrindo logo à entrada da casa o vestido de penas. Surpreendida, a jovem explicou que ele a tratara muito bem quando ela era pequena e que agora, assim, ela retribuía. O Tenetehara se agradou da mulher e casou-se com ela. Passado algum tempo, o marido quis conhecer os parentes da esposa. Ela tentou dissuadi-lo mas nada conseguiu. Esperaram por um dia em que o vento não estava muito forte e foram até o céu onde morava o Urubu-rei. Ele era muito feroz; exigiu do genro que construísse uma canoa em apenas um dia. Desconsolado, o Tenetehara dirigiu-se para a mata onde escolheu um pau maneiro para canoa, mas logo viu a impossibilidade de realizar a tarefa. Apareceu-lhe um pica-pau que, ao saber de sua triste história, reuniu os companheiros. Em pouco tempo o bando de pica-paus derrubou a árvore, cavou o tronco, fez todo o trabalho. O homem deitou a canoa na água e foi chamar o sogro. Este, apesar de surpreso, não hesitou em exigir que derrubasse todas as árvores de uma grande roçado. Mais uma vez os pica-paus vieram em sua ajuda e o Tenetehara, antes de terminar o dia, estava com a derrubada feita. O velho Urubu-rei mandou que o Tenetehara esperasse três luas para que os paus secassem e então fizesse a queimada. Quando chegou o dia, mandou que os filhos quimassem pela beira e, em pouco tempo, o Tenetehara estava cercado pelo fogo. Desesperado, o Tenetehara buscava um meio de escapar, quando se encontrou com a aranha que o chamou para sua casa. Entraram num buraco que era a casa da aranha e aí ficaram a salvo. Quando o fogo apagou, o Urubu-rei procurou pelo cadáver carbonizado do genro. Este, cauteloso, fugiu para a casa dos Gaviões aonde foi pedir auxílio, contando-lhes o que sofrera do Urubu-rei e ali apanharam a mulher e o filho do Tenetehara. Os urubus tinham medo dos gaviões. O Tenetehara gostou da maloca dos gaviões e decidiu morar em companhia deles(118). (Charles Wagley & Eduardo Galvão: Os Índios Tenetehara. Uma Cultura em Transição (pp.154-155). Serviço de Documentação e Cultura/Ministério da Educação e Cultura. 1961.)

Nota 118: Em outra versão dessa história, um preto casou-se com um papagaio. Ao descobrir que o papagaio se transformava em uma mulher branca, casou com ela. Ao levá-la a uma festa, um branco tomou-lhe a mulher, dizendo: “negro casa com negro”


Versão Paumari


Os Paumari têm um mito que conta a historia de um rapaz que é raptado pelos urubus porque impede (flechando-os) que eles comam os restos de um pirarucu morto por seu pai. La no céu, ele é ameaçado de morte pelos urubus-pretos (o povo) que querem constantemente devora-lo. Ele é "salvo" pelo urubu-rei (o chefe), que é branco e tem olhos azuis, que quer acabar de cria-lo. Ele é assim escravizado pelo urubu-rei que quer lhe dar sua filha (que do ponto de vista dos urubus é linda e do ponto de vista dos Paumari é feia) para transforma-lo em genro. O trabalho exigido pelos urubus é, do ponto de vista Paumari, impossivel de levar a cabo (o roçado que ele tem que limpar em um dia é imenso, a canoa que ele tem que encher de peixe é grande como cinco ubadas paumari, e assim por diante). Sob ameaça de morte e devoração ele é salvo sistematicamente por primos-animais que tem pena dele e lhe oferecem uma irmã para "comer" (oficialmente eles comem comida juntos, mas o relato é propositalmente ambiguo) enquanto eles resolvem seus problemas de produção. Assim, os primos-formigas limpam o roçado (enquanto ele come com/a prima-formiga), os primos-lontras enchem a canoa de peixe (enquanto ele come com/a prima-lontra), etc.

  • A alternativa à devoração (alimentar) é a submissão e o serviçalismo (entre outros sexual). Mas neste caso, na escala da perspectiva humana - transposta no mundo dos urubus - o serviçalismo não é realizavel (por um problema de diferença de dimensões) e precisa ser realizado por Outros. [Não sei bem como pensar essa terceirização dos serviços, pois os primos-animais que ajudam o rapaz não pedem nada em troca do serviço, simplesmente entregam a irmã e executam o trabalho. Talvez a chave esteja no ultimo trecho do mito. Quando o primo-pato traz o rapaz de volta para a terra e para sua aldeia. Ele é chamado pelos pais do rapaz de "compadre" (visairi) e não mais de "primo" e ele aceita um pagamento (farinha e milho) pelo serviço]. OBJ 09:29, 11 Dez 2005 (UTC)


Versão Yudjá


Essa história (resumida aqui a partir de uma narração em português feita por Mareaji) sucedeu a um finado que tinha costume de matar urubus enquanto estes estavam reunidos para comer as vítimas dos guerreiros Yudjá. Uma vez em que os pássaros estavam em uma praia onde havia diversas vítimas, o finado flechou e matou o seu chefe, filho do capitão, o urubu-rei, e foi obrigado, sem poder fugir, a assumir o lugar de sua vítima. Esta tinha duas penas em cada asa, que foram arrancadas e colocadas em seu corpo ao som de uma canção, a qual propiciou que as asas funcionassem. As demais penas foram colocadas também, ele experimentou-as mas só deu certo ao fim de uma reza repetida algumas vezes. As pernas de um cadáver, ele teve de cortá-las e levá-las para o seu pai. Ensinaram-lhe todos os procedimentos da vítima perante o pai: como dançar, onde botar a carne, o que conversar, sobretudo a necessidade de não piscar os olhos, mas fitar o pai continuamente, aproveitando o momento em que este piscasse (se piscasse) para fazê-lo simultaneamente. Mesmo assim os urubus estavam receosos:

“Parece que ele vai descobrir que você não é o seu filho. Parece que ele vai notar que você é diferente. Você está gordo, mas não é igual ao filho dele, não”.

Após a conversa com o pai, o finado foi ter com as duas esposas de sua vítima, que julgaram-no emagrecido, e ele lhes ofereceu como desculpa suas incessantes andanças. Na hora de pentear-lhe os cabelos, as esposas decidiram untar seu corpo com óleo, fazendo cocô cada uma em uma de suas pernas. Muito sem jeito, o finado ainda lhes perguntou para quê tanto, e elas estranharam-no dizendo-lhe que nunca fora assim. Um verdadeiro sofrimento era a vida do finado entre os urubus. Esta aldeia acha-se situada no céu em uma região de árvores completamente secas (epa ’ï’ü, literalmente: cadáveres de árvores). São da terra os alimentos dos urubus: as carniças cujo fedor chega até o céu como uma fumaça que emana dos cadáveres. Como me disse Mareaji, “o finado não tinha resistência para comer essas comidas”, às quais contudo era obrigado quando não encontrava meios para não fazer a refeição com o pai ou com as esposas. Ficou amigo de um gavião que morava em uma aldeia das redondezas onde geralmente ia comer carne assada de mutuns, macacos e outras caças, por não suportar carne podre, de gente ou outras. O finado acabou traindo-se para o pai por não ter conseguido uma vez deixar de piscar os olhos. Estava ele um dia bem cedinho na beira do rio, carregando, como de costume, o machado, o cocar e a flauta da sua vítima, quando lhe disseram que o capitão pretendia matá-lo assim que voltasse para casa. Depois de um longo intervalo pensando em como poderia ir-se embora, seu pato de estimação apareceu oferecendo-se como transporte. Sua sorte era que havia muitos xamãs naquela época, pois caiu na aldeia onde morava à beira da morte. Era um homem muito rico de parentes em diferentes aldeias, e as pessoas iam visitá-lo e ouvir sua história, e, assim, esperava ele um dia a visita do tio. Este sobre tudo lhe perguntou e lhe pediu para ver o machado, o cocar, a flauta, revelando-lhe ao fim que tinha ido apenas recuperar o machado, o cocar e a flauta de seu filho.

“Não te reconheci porque está igual ao meu tio, mas se eu soubesse tinha te matado’.

Ele dissera-lhe antes de passar o cocar para as mãos do pai de sua vítima, "O cheiro é muito ruim, não sei se você vai agüentar, é cheiro forte”.

O relato de sua andanças foi assim feito por Mareaji:

Ele andou muito com urubus. Uma vez foram muito longe da aldeia — disseram que era para caçar índios, mas estavam mesmo era caçando bichos podres: eles costumam fazer sempre assim. Aí, quando voltavam do mato, o Yudjá mentiu para os urubus. Dizem que tinha um pau que tinha um leite igual a sangue, e ele cortou o pau, tirou o leite e passou no pé, depois falou para um urubu:

“Não vou andar mais porque furei meu pé. Vocês podem ir embora porque vou ficar aqui”.

“Não, a gente não pode te deixar aqui, porque você é o chefe da aldeia, senão nosso chefe vai brigar conosco...”

Eles tinham medo do chefe deles [o capitão]. O Yudjá disse:

"Eu não vou andar mesmo, porque não dá para eu ir no caminho”.

Um urubu colocou-o nas costas para carregá-lo, cada um carregava um pouco até que chegassem na canoa. Mas perto da canoa tinha um pau quebrado caído no caminho, e aí ele disse:

“Se vamos passar embaixo desse pau caído é bom você abaixar-se um pouco pra lá...”

E quando se abaixou, o Yudjá enfiou o pau no rabo dele, que gritou:

“Ah, você comeu meu rabo! Você pode ficar aqui, pode morrer aqui que não vou mais te levar, não. Você é bobo!”

Derrubou-o, xingou-o e foi-se embora. Quando chegou na canoa, perguntaram-lhe pelo homem:

“Ele não quer vir, não”. “Como não pode vir?”

E outro urubu foi buscá-lo, e quando ficou do mesmo jeito, o Yudjá comeu o rabo dele. Depois foi um outro: dizem que ele fez isso até acabarem os urubus que estavam na canoa. Os outros então decidiram deixá-lo lá para morrer. Chegando perto da aldeia, os urubus gritaram para as mulheres:

“Esquentem água porque parece que nós estamos ganhando nenê! Parece que nós vamos ter filho!”

E [por sua vez] o pessoal [urubu] que estava na aldeia ficou gritando assim:

“Ah, os homens estão matando índios!” — o pessoal que estava na aldeia falou assim.

Quando chegaram na aldeia, eles contaram:

“Aquele cara comeu nosso rabo!” “Podem esquentar água!”

Todas as mulheres esquentaram água e eles beberam água quente para matar!

Esta cena do retorno dos guerreiros-urubu à aldeia merece ser compreendida assim (mas não interroguei o narrador a respeito da análise que faria): seu próprio estado de gravidez anunciado pelos homens era uma figura de linguagem, cujo sentido próprio vinha a ser restituído pelas pessoas da aldeia como um estado de homicídio; a ação do homem Yudjá, entretanto, tornara a metáfora urubu um fato realmente acontecido! (Tânia Stolze Lima: Um peixe olhou para mim (pp. 359-362). ISA/Unesp/NuTI. 2005.)


Versão Palikur


Apresento aqui um resumo da história contada por Tebenkue em português a mim e a Lux Vidal.

Certo dia dois homens saíram para caçar. Na orla da mata encontraram um urubu-rei de duas cabeças, um dos homens resolveu mata-lo, pois o carvão que resulta da queima de suas cabeças é um excelente remédio para curar panema de cachorro. Depois de flechar o urubu, o Palikur cortou as cabeças e as colocou na sacola. Logo em seguida, ouviu-se uma voz vindo de cima, um grito, dizendo assim:

“Meu cunhado, cadê tu?!”

Ao escutar a voz, um dos homens fugiu, abandonando o companheiro que havia flechado o urubu-rei. Não demorou muito, este viu dois rapazes chegando. Um deles lhe perguntou:

“Foi tu que flechaste nosso cunhado, foi tu que mataste nosso cunhado?”

O Palikur respondeu que não. Havia matado apenas um urubu-rei. Os rapazes lhe informaram que este urubu-rei era o cunhado deles. E decidiram levar o Palikur para substituir seu cunhado morto:

“Nós viemos pescar, sentimos fome e viemos aqui fazer assado, foi quando você matou nosso cunhado, agora vamos te levar no lugar dele. Cadê a cabeça dele?”

O Palikur, que já tinha concordado em acompanhá-los sem criar problemas, entregou-lhes a cabeça do urubu-rei. Um dos rapazes pegou a cabeça e arrancou o “capacete” dela, depois tirou o “paletó” do corpo do urubu morto, em seguida, vestiu-os no Palikur. Depois, os rapazes lhe ensinaram como deveria se comportar com a esposa e o filho do finado. Deram-lhe um banho e lhe perguntaram se conseguiria carregar o jamaxi (cesto que é transportado nas costas como uma mochila) do urubu morto. Ao olhar o minúsculo jamaxi, o Palikur disse que sim. Seus cunhados, então, preveniram-no que, assim que colocasse o jamaxi nas costas, não olhasse para trás, porque se fizesse isso todo o peixe nele contido cairia por terra. Mas o Palikur não seguiu a recomendação e, com isso, uma quantidade enorme de peixe caiu do jamaxi. Seus cunhados o repreenderam e mandaram-no colocar todo o peixe de volta no cesto. O Palikur ficou pensando:

“Como vou colocar um monte de peixe nesse jamaxi pequenininho? Com um peixe só ele já vai ficar cheio”.

Vendo que o cunhado não daria conta da tarefa, um dos rapazes encheu o jamaxi para ele. Logo em seguida, os três voaram. Quando chegaram na casa do finado, o Palikur fez agrado para a esposa e para o filho, tocando as músicas que o finado tocava na flauta, como seus cunhados o haviam ensinado. Mas, a mulher sentiu um cheiro diferente no marido, um pixé (fedor) e logo duvidou que aquele homem fosse de fato seu marido. Os irmãos tentaram dissuadi-la, mas não conseguiram convencê-la.

Quando o pai deles apareceu, a filha colocou sua dúvida e, para resolver a questão, o velho decidiu testar o Palikur:

“Vou experimentar ele, porque o teu marido faz tudo o que eu mando fazer, se ele fizer tudo que eu mandei fazer, como teu marido fazia, então é teu marido, porque o cheiro eu também estou sentindo, esse cheiro é muito diferente, muito forte”.

Então pediu ao genro que fizesse o favor de fazer uma canoa, usando um pedacinho de pau que ele havia derrubado no dia anterior. O cunhado mais jovem procurou o Palikur e lhe disse que dessa vez não poderia salvá-lo:

“Esse serviço é tu que vais fazer, nem eu posso te salvar disso, como é que a gente vai fazer agora? Agora papai vai te comer e vai nos comer também”.

Ao chegar ao local, onde estaria o tal pauzinho, o Palikur avistou três mil toras de madeira derrubadas, teria de fazer não uma, mas três mil canoas em um único dia. Ele começou a lavrar a madeira, mas depois de um tempo, sentou e começou a chorar. De repente, apareceu um homem e lhe perguntou o que estava fazendo ali. O Palikur contou toda a história ao “tio”, desde a morte do urubu-rei até a tarefa que o sogro lhe havia passado. O homem então ralhou com ele:

“Olha! você que é uma pessoa de outro mundo, não pode ver um bicho no mato sem correr pra matar? Porque vocês são assim? Viu agora o que te aconteceu? E desta vez você não escapa, o bicho vai te comer!”.

O Palikur chorou mais ainda. O homem resolveu então ajuda-lo. Afastou-se por alguns minutos e voltou trazendo muita gente, todos carregando o material necessário para cavar as canoas. Às 11:00 da manhã, quando o sogro veio trazer o caxixi (bebida de mandioca fermentada), o serviço estava feito. Assim que o sogro partiu, os ajudantes sairam do esconderijo e vieram tomar o caxixi, depois foram embora.

Pensando que o rapaz tinha cumprido a tarefa sem ajuda de ninguém, o sogro deu-se por satisfeito, mas sua filha continuava na dúvida, então ele passou outro teste para o genro. Mandou-o derrubar, queimar, roçar e plantar sua roça, e a mandioca deveria estar crescida no final da tarefa. Quando o Palikur chegou no local da roça, disse:

“É hoje! é hoje que o bicho vai me comer”.

E desatou a chorar. Não demorou muito, apareceu outro homem, este também lhe perguntou o que estava acontecendo. Novamente, o Palikur recebeu uma bronca por ter matado o urubu-rei. Mas, depois da bronca, o homem o ajudou. Até às 11:00h, o Palikur e seu “tio” já haviam derrubado o local da roça envolvendo as árvores com uma corda. Quando o sogro veio trazendo o caxixi, o homem se escondeu. Depois de conferir o serviço, o sogro disse ao genro que queria a roça queimada até o final do dia, e foi embora. Depois de tomar o caxixi, o homem disse ao Palikur que agora ele teria de se virar sozinho, e partiu.

Depois de tentar várias vezes acender o fogo, o Palikur desistiu e voltou a chorar. Dessa vez quem veio em seu socorro foi uma velha. Depois de saber da história, a “vovó” abriu uma latinha de onde tirou uma espécie de isqueiro, acendeu-o e o jogou no meio da roça, o fogo finalmente pegou, limpando todo o terreno. Com o terreno limpo o sogro apareceu trazendo o caxixi e um pequeno feixe de maniva (talo de mandioca) com o qual seu genro Palikur teria de semear o campo. Assim que o sogro partiu, a velhinha saiu do esconderijo, bebeu o caxixi e depois foi embora.

Mal o Palikur acabara de plantar as poucas manivas que o sogro trouxera, apareceu um velho. Depois de ouvir a história do Palikur, este também decidiu ajuda-lo, mandou-o então arrancar de volta as manivas que acabara de plantar e colocá-las dentro de um balaio. O velho pegou o terçado do rapaz, foi tirando e cortando as manivas do balaio, cortou mais de mil e depois virou o balaio e as “sapecou” por toda a roça, assim que caíam na terra logo germinavam, cresciam e amadureciam. Quando o sogro apareceu com o caxixi, o velho se escondeu.

Mais uma vez o rapaz passou no teste, mas sua mulher ainda não se convencera e o Palikur recebeu outro trabalho. Teria de encher um paneiro com água para o banho do sogro. Novamente, o rapaz é ajudado por um homem que aparece na beira do rio, enche o paneiro de água e o coloca nos ombros do Palikur, recomendando que ele não olhe para trás até chegar ao local onde deverá despejar a água, aí então poderá olhar para a água derramada até encher o vasilhame do banho.

Para o sogro não havia mais dúvidas de que esse homem era mesmo o marido de sua filha, mas ela não se convencia; então o Palikur recebeu uma última tarefa, deveria serrar três dúzias de tábuas de água, do “âmago” da água.

O Palikur pegou um serrote e foi em direção ao mar. Diante da impossibilidade de realizar a tarefa, chora e novamente surge um homem que o auxilia, toma o serrote e tira lindas tábuas de água, depois vai embora. O sogro exige então que ele leve as tábuas até sua casa. O Palikur torna a chorar, e chorar muito. Logo aparece uma mulher que o orienta como carrega-las. Ele deve usar luvas de isopor e colocar um isopor nos ombros, que devem ser cobertos pelo seu "paletó" de urubu (pois era assim que o finado fazia).

Com essa última tarefa realizada, a mulher se conformou. Depois de um tempo, ela se acostumou com o marido Palikur. Tudo ia bem, até que certo dia, seus cunhados o convidaram para pescar. Depois da pescaria, resolveram fazer um assado. Quando o Palikur começou a cortar a lenha para fazer o fogo, os cunhados se assustaram com o barulho e começaram a voar. Nesse momento, o Palikur reconheceu o local onde estavam, era o mesmo onde ele havia matado o urubu-rei, cunhado verdadeiro daqueles urubus, então ele começou a cortar uma sapopema e a fazer mais barulho ainda, com isso os urubus ficaram apavorados e fugiram voando. O Palikur, então, tirou o "paletó" e o "capacete" de urubu e correu de volta para sua casa.

Aí a história termina.

No final, Tebenkue nos informou que todos os homens e mulheres que surgiram em socorro do Palikur, eram, respectivamente, tios e avós dele.--AC 22:04, 22 Abril 2006 (UTC)

Legados de urubuEditar

Kanaxiwe


Naqueles tempos Kanaxiwe ainda vivia na terra e estava casado com uma mulher Karaja chamada Mareiko. O sol corria rapidamente pelo céu e a noite era longa. Mareiko foi ao roçado e, surpreendida pela escuridão, caiu e se feriu.

De volta à aldeia, queixou-se para o marido, o poderoso Kanaxiwe:

"Você não pode dar um pouco mais de luz aos Karaja ?"

Então Kanaxiwe entrou no mato e procurou um cipo de embauba. Enfiou-o na boca até o ânus e morreu.

Alguns dias se passaram. Seu corpo apodrecia e estava coberto de vermes. Os urubus chegaram. O passaro caracara, desconfiado, pousou em sua barriga e gritou: "iru ! iru !" (Ele esta vivo ! Ele esta vivo!)(...)

Depois, a mosca entrou na boca de Kanaxiwe e saiu pelo ânus. Ela disse que ele estava morto. Finalmente, o bezouro também penetrou no corpo de Kanaxiwe, mordeu-o por dentro e confirmou que ele estava mesmo morto. Então foram buscar o iolo, o urubu-rei.

Ele desceu do céu e pousou na barriga de Kanaxiwe para devora-lo. Então, Kanaxiwe segurou-o pelas pernas e pediu que lhe desse a luz. O urubu-rei mandou buscar o seu cocar Vênus, mas Kanaxiwe achou sua luz muito fraca. Então Iolo foi buscar o seu cocar Lua, mas Kanaxiwe recusou novamente. Finalmente, o urubu-rei mandou trazer o seu cocar Sol e Kanaxiwe ficou muito satisfeito. Ele quebrou a perna de cada um dos cocares para que andassem mais devagar no céu e iluminassem melhor a terra. So então ele liberou o urubu rei.

Este subiu para o céu e foi respondendo as perguntas de Kanaxiwe: como se pesca ? como se faz uma canoa ? qual o segredo da imortalidade ? Mas o urubu-rei ja estava muito longe, bem alto no céu, so as arvores e alguns animais (cobras e lagartos) ouviram a resposta à ultima pergunta.

(In: Nathalie Pétesch. 1992. La Pirogue de Sable: Modes de représentation et d'organisation d'une société du fleuve. Les Karaja de l'Araguaia (Brésil Central). Tese de doutoramento. Université Paris X-Nanterre: 423-424)


O Dono do Fogo


Segundo os Kuikuro do Alto Xingu, o dono do fogo originalmente era o urubu-rei. Havia um herói demiurgo, Kanassa, que andava sempre com um vagalume na mão fechada. Essa era a única luz que existia, e como ficava dentro da mão dele, havia muita escuridão. Kanassa desenhou no barro uma arraia, mas com o escuro não viu o que ele próprio tinha criado, e foi ferrado. Pediu, então, o fogo à saracura, para poder enxergar - e esta lhe disse que não havia fogo, só o urubu-rei é que tinha. Kanassa desenhou um veado morto, escondeu-se na unha da carniça, e ficou esperando o urubu se aproximar. Quando este começou a comer a carne podre, agarrou-o pelo pé... e só o soltou quando o urubu-rei lhe trouxe o fogo. O urubu-rei só achou ruim um pouquinho, e ainda ensinou os Kuikuro, a fazerem fogo por fricção, com pedaços de flecha e uma varinha de urucum (Villas Boas & Villas Boas, 1972: 96-100).

No mito dos Kamaiurá, do Alto Xingu, o fogo não é roubado; o Criador, Mavutsinim, ao ver o povo assando peixe ao sol, comendo comida meio crua, ou que demora demais a ficar pronta, ensina a humanidade a fazer fogo por fricção, com cana de ubá (Agostinho, 1974: 61-62).

Um mito parecidíssimo foi registrado por Nunes Pereira (1967: 561-562) entre os Cauaiua-Parintitim, no Amazonas. Baíra, o demiurgo, se faz de morto para atrair o dono do fogo, o urubu, de quem rouba as brasas para dar ao povo Parintintim. O sapo cururu é que consegue, obedecendo às ordens de Baíra, atravessar o rio e chegar aos índios sem deixar apagar o fogo".

Mindlin, Betty. 2002. "O fogo e a chama dos mitos". Estudos Avançados, vol.16 no.44 São Paulo Jan./Apr.



Estranhos UrubusEditar

Sub-seção dedicada ao Urubu-Estrangeiro, Urubu-Morto, Urubu-Outro

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