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A Onça e a Diferença

Notas sobre as Mitológicas

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As notas a seguir foram iniciadas por Eduardo VC no correr dos dois cursos sobre as Mitológicas (as grandes e as pequenas) que ele ministrou em 2004. As iniciais CC, MC, OMT, HN, PJ e HL remetem aos conhecidos títulos (e edições) em francês dos livros de Lévi-Strauss.--Eduardo 18:33, 17 Jul 2005 (UTC)

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1. O veneno do relativismo.

O veneno relativista e a teoria do contínuo intensivo. Pensar as referências constantes ao relativismo como uma espécie de veneno, que exige ‘antídotos’. Pensar isso no contexto da ‘definição’ de veneno dada em CC (pp. 281-87), sobre o timbó como algo que curto-circuita a divisória Natureza/Cultura: o veneno é a natureza inserindo-se diretamente na cultura, produzindo sua indiscernabilidade, compenetração e isomorfismo. O uso do veneno é, para a filosofia indígena, ‘um ato cultural diretamente engendrado por uma propriedade natural’. Daí a associação do veneno com a figura do sedutor, elaborada nos mitos. Se é assim, compreende-se melhor as seduções ou “tentações” (Hollis & Lukes p. 1) do relativismo, corruptor da juventude [ver Herrnstein-Smith sobre o socratismo anti-sofístico nesse contexto]… Só que o relativismo seria um veneno funcionando em sentido inverso: intrusão violenta da cultura no seio da natureza, com os atos (representações) culturais engendrando diretamente a ordem natural etc. Associar também o cromatismo do veneno com a acusação do ‘anything goes’ (ou “vale tudo”: Feyerabend), i.e. de que todos os gatos são pardos, feita ao relativismo (tb. in Herrnstein-Smith). [Cromatismo ou, também, mundo podre, noite eterna dos gatos pardos, confusão; por contraste com a iluminação diurna da razão, mestra do descontínuo, etc., cuja vigília excessiva – o mundo queimado — impede o sonho noturno etc.] O relativismo é um veneno ou mais bem uma droga, viciante (sedutora da juventude etc.). Ver O Veneno Pirrônico de Renato Lessa; ver as referências humorísticas ao derridium e ao lacanium feitas por Latour em sua réplica a Sokal & Bricmont (in F. Cusset, French Theory, p. 17). Sócrates, este Don Juan filosófico, corruptor da juventude, que faz pouco da religião da polis, um sedutor em suma, um relativista, condenado a morrer - por veneno! E de como a contraprova antirelativista por contradição pragmática é um fazer o relativista ‘provar do próprio veneno’… Ver por fim, e por suposto, o pharmakon platônico.

CC 263: A origem das doenças é equivalente aos desmoronamentos de terra [—> desconstrução... CC275: sedução (sexual) / veneno (alimentar) / podridão (olfativa) —> e, acrescento, o relativismo (epistemológico).

Curiosamente, o primeiro desenvolvimento ‘perspectivista’ que vemos nas Mitológicas se encontra nos mitos do capítulo “Pièce chromatique” do CC, que trata da origem e signficado do veneno, onde surge o grande mito arekuna (M145) coletado por Koch-Grünberg, onde se diz que os carrapatos são as miçangas do tapir, que o cachorro é sua serpente venenosa etc., e um mito kachuyana onde um homem em devir-guariba vê uma guariba morta como esposa atraente. Ver o comentário da p. 281, onde CLS escreve: [nesses mitos] la nature imite le monde de la culture, mais à l’envers. […] Il ne suffit donc pas de dire que, dans ce mythes, la nature, l’animalité, s’inversent en culture et en humanité. La nature et la culture, l’animalité et l’humanité, y deviennent mutuellement perméables. […] Or, ce sentiment privilégié d’une transparence réciproque de la nature et de la culture … une certaine conception du poison ne serait-elle pas propre à l’inspirer? Entre nature et culture, le poision opère une sorte de court-circuit. […] Le poison surclasse l’homme et les moyens ordinaires dont il dispose, il amplifie son geste et anticipe ses effets… On comprendrait donc que la pensée indignèe vît en lui une intrusion de la nature dans la culture … leurs parts respectives deviendraient indiscernables. […] usage du poison apparaîtra comme un acte culturel, directement engendré par une propriété naturelle. … point d’isomorphisme entre nature et culture … compénétration. […] l’image même du séducteur."

Timbó (Cateté, 1999)

E ver p. 284-5, sobre epidemias, arco-íris, veneno e cromatismo. Onde: ‘[l]a problématique du poison de pêche nous a suggéré que celui-ci se situe… en un lieu où le passage de la nature à la culture s’opère sans solution de continuité ou presque. … l’intervalle entre nature et culture, qui existe sans doute partout et toujours, se trouve réduit au minimum. […] continu maximum qui engendre un discontinu maximum… union de la nature et de la culture qui détermine leur disjonction… E p. 286, crucial: "Tout se passe comme si la pensée sud-américaine, résolument pessimiste par son inspirations, diatonique par son orientation [ou plutôt, la pensée de CLS… (EVC)] , prêtait aux chromatisme une sorte de malfaisance originelle, et telle que les grands intervalles, indispensables dans la culture pour qu’elle existe, et dans la nature pour qu’elle soit pensable par l’homme, ne puissent résulter que de l’autodestruction d’un continu primitif, dont la puissance se fait toujours" sentir aux rares points où il s’est survécu: .. le poison…. l’arc-en-ciel…

CC287: o sedutor como envenenador da ordem social --> e seu digno sucessor o relativista [francês...] como envenenador da ordem cosmológica.


2. Notar a (relativamente!) pequena atenção das Mitológicas às problemáticas do:

Canibalismo (assimilado à questão da oposição cru/cozido; cf. MC p. x)
Alucinógenos (assimilados à questão do tabaco e das bebidas fermentadas — e do veneno. Ver MC p. 55 para a única ref. à Banisteriopsis e à Datura).
Perspectivismo (assimilado à questão dos patamares cósmicos na PJ).


3. Lendo no CC sobre o charivari que acompanha os casamentos anômalos e sobre a algazarra durante os eclipses, pensa-se em dois refrões populares brasileiros:

‘Sol e chuva, casamento de viúva’ -> sanção cósmica para uma conjunção excessiva, captação de um termo da cadeia sintagmática etc.
‘Chuva e sol, casamento de espanhol’ -> casamento excessivamente distante, com estrangeiro. Lembrar de um dito português: 'Da Espanha não vem nem bom vento, nem bom casamento’… Ainda mais se imaginarmos que este mau vento espanhol seria um… vento de seca, mundo queimado?


4. O CC é um livro ‘sobre’ o contínuo e o discreto; MC é um livro ‘sobre’ o literal e o metafórico. Em outras palavras, cada um deles tematiza um aspecto de uma teoria do sentido: a relação entre significante e significado (CC), a relação entre signo e referente (MC). Mas também, em MC, a oposição crucial entre dentro e fora, conteúdo e continente (oposição que será central também na PJ). Esta é a outra maneira de ler o trajeto: o CC é sobre pequenos e grandes intervalos; o MC sobre abertura e fechamento, dentro e fora, continente e conteúdo. Mas notar como o tema do paradoxo e do sedutor, próprio do veneno em CC (curto-circuito entre N e C), vai ser ocupado pelo mel em MC, lugar da ambiguidade entre o literal e o metafórico. Igualmente, na Potière, o dentro e o fora vão dar lugar a uma figura paradoxal que transcende a distinção, i.e. a garrafa de Klein. Ou ainda, de outro modo: lógica das qualidades sensíveis no CC; lógica das formas no MC; lógica das relações no OMT — do espaço ao tempo, da lógica de termos à lógica das relações… e também de uma estática das oposições discretas (alto/baixo) a uma dinâmica da integração de limites (perto/longe). Ver MC p. 406 e OMT pp. 155, 156, 159.


5. A importantíssima página 160 de OMT, onde se contrastam o Sol e a Lua por sua "maneiras próprias de serem instáveis" (ou por sua diferença na diferença): o sol como oscilador contraditório (ou x ou não-x), a lua como terceiro incluído (x e não-x, nem x nem não-x). Ver isso e a relação forma/fundo ~ contrad./3º excl. (NB.Francisco Araújo escreveu algo interessante sobre isso, que poderia entrar aqui.). A síntese disjuntiva e a viagem de canoa do Sol e da Lua: o tema crucial de OMT.Igualmente, ver isso e a relação hierárquica entre relações same-sex e cross-sex em Strathern. (Cf. a referência repetida ao caráter ‘hermafrodita’ de Lua em OMT e no artigo ‘Le sexe des astres’). Esta discussão é crucialmente retomada via a refutação de uma crítica de Van Oosten em Potière Jalouse pp.195-99.


5a. Lune est l’autre (e, como completou-me TSL certa feita, "le soleil est le soi"). (Le Soi-Soleil.) “Les Warrau, qui possèdent des termes distincts [para o sol e a lua], subordonnent tout de même le soleil à la lune: celle-ci ‘contient’ celui-là [engloba…] (Wilbert 9, p.67). Cette primauté logique attribuée à la lune sur le soleil [mesma expressão em PJ p. 210; N.B. Inversão de um candidato a universal…] se retrouve dans plusieurs populations. Les Surára [Yanomami], qui font de la lune leur démiurge, accordent peu d’importance au soleil parce que, disent-ils, l’astre du jour est seul dans le ciel, tandis que l’astre de la nuit jouit de la compagnie d’innombrables étoiles qui lui sont étroitement associées… [Becher I, p. 104 etc.]” (OMT: 115-116; eu grifo). Em seguida (loc.cit) CLS lembra que nas línguas tg ‘estrela’ se diz ‘fogo da lua’ etc., que a ‘ideologia complexa e recorrente segundo a qual a lua tem prioridade sobre o sol’ é muito difundida nas Américas, e dá exemplos Warrau, Toba, Cubeo (lua = sagrado, sol = profano, diz Goldman), Cashinawa… [e Califórnia do Sul, cf. PJ] E claro que há, e não poucas, religiões solares nas Américas, pense-se nos imperiais Azteca e Inca, nos Maya etc., e nas comparações explícitas de algumas mitologias que põem o Sol como superior (OMT 228-29, ou 233 p.ex.) — não se trata de afirmar nenhum simbolismo lunar de tipo arquetipal [ver a importante discussão em PJ p. 195-99]. Entretanto, "a Lua contra o Estado", ou ‘Lune et l’autre’(recuperar as passagens de I. Combès sobre o tema entre os Tupi-Guarani), isto é, a Lua contra o Moi-Soleil — l'État, c'est le Moi — parece ser uma pista interessante. O mesmo tema reaparece na OMT pp. 227-228 em um contexto norte-americano (Cheyenne, Arapaho), onde CLS observa que a Lua engloba o Sol porque a Lua possui um aspecto diurno (ela ilumina), ao passo que o Sol não possui nenhum aspecto noturno. (idem em HN p. 312-13 para Salish).


5b.O Demiurgo e o Enganador.É óbvia a relação entre as “maneiras próprias de serem instáveis” do Sol e da Lua e as “funções complementares mas opostas” de Lince e Coiote, Maira e Gambá nos mitos americanos, isto é, do Demiurgo e do Enganador: o primeiro muda os proto-seres de humanos em animais (etc.), o segundo “se obstina a imitar as criaturas como elas eram nos tempos míticos, mas como não poderão permanecer” (tudo isso parece apoiado em uma interpretação muito particular dos mitos do Gambá em CC e MC) - isto é, dir-se-ia, como as criaturas eram antes de serem elas mesmas... (antes dos pecaris virarem pecaris, como diriam os Yanomami e os Xokleng, ver “A Floresta dos Espelhos” nota 20)O Demiurgo introduz a regra e a medida, a categorização e a universalização. O Enganador privilegia as exceções, os privilégios, as anomalias. “O primeiro dissocia os aspectos positivos e negativos do real e os coloca em categorias separadas. O outro age em sentido contrário: ele reúne o bom e o mau” (HL, pp. 73-74; ver também CC p. 180,l 298 n.1; MC p. 68-69; HN p. 343). [Por outro lado, Lince, que seria neste caso o Demiurgo, é entretanto explicitamente visto como “de natureza ambígua”, “coincidindo quase com o personagem de Lua” — ora velho e feio depois jovem e belo mas com uma marca no rosto (como a Lua), ora tendo uma bela pelagem mas uma carne desprezível, e possuindo conotações negativas (anti-caça) e positivas (civilizador)… HL: 34-35. Como resolver esta aparente contradição?]

5b1. Os mitos sobre o Demiurgo e o Enganador (Deceptor na traduçao de B. Perrone-Moises 1993)referidos ao Lince e Coiote (América do Norte) e Maíra e Gambá (América do sul) podem se pensar em relação a contextos e cosmologias distantes. --SAS 21:23, 13 Ago 2005 (UTC) Exploração a partir do Demiurgo e o Enganador.


5c. O dia e a noite no Poema de Parmênides. Lê-se no Fragmento VIII 55-59 do Poema, conforme a tradução de Barbara Cassin:


Ils ont divisé la structure en contraires
et ils ont posé les marques qui les séparent les uns des autres;
d'un coté le feu éthéré de la flamme:
il est doux, d'une grande légèreté, de tous cotés le même que soi
mais pas le même que l'autre; et puis cet autre, qui est en soi
les contraires: la nuit sans enseignement, structure dense et pesante.


O comentário de BC (ed. bilíngue Points, pp. 44 n.1, 85-91, 181-85, 191-200) esclarece que se trata aqui do discurso da doxa, isto é, de uma apresentação, pela Deusa que fala no poema, do eco dóxico e mundano-mortal (físico) à via una-imortal (ontológica) da aletéia. No mundo, então, temos, de um lado, o fogo ou dia (o ser) que é "o mesmo por todos os lados", ao passo que a noite, contrário do fogo-dia, é, "em si mesma", outra que si mesma: um não-ser que, por ser um não-ser, é ambos os contrários, sendo seu próprio contrário. Passando da ontologia grega à generologia melanésia por via da astro-mitologia americana, dir-se-ia que o nada noturno é cross-sex, e o ser diurno, same-sex...


6. O “analógico” e a noção de transformação, nota crucial in MC p.74. Em sua lição inaugural, CLS escrevia que, em contraste com a história, ele adota um “modèle plutôt de transformations que de fluxions” (1973 [1961]:28), o que sugeriria uma análise combinatória ou uma álgebra de grupos (descontinuidade) mais que uma dinâmica diferencial (continuidade). Mas na OMT, ele fala justamente de uma "mythologie des fluxions" (p. 388) estudada nesse volume das Mitológicas, centrado como está nos mitos sobre as periodicidades curtas e os pequenos intervalos (e degenerando para o romance etc.). Ora, a expressão "método de fluxões" é uma alusão direta ao cálculo diferencial, que foi chamado assim por um de seus inventores, Isaac Newton. E no MC p. 74, a nota sobre os "modelos analógicos" remete aos parágrafos sobre as transformações de tipo Darcy Thompson no final do HN, que não são exatamente transformações descontínuas, mas etapas de uma variação contínua a que se submete um conjunto de parâmetros descontínuos. Ver Jean Petitot nesta conexão.


7. É em L’Homme nu que se faz a costura entre a mitologia da gemelaridade (via les frères célestes de M539, e a pletora de figuras duais e desdobradas destes mitos da primeira parte do HN) e a mitologia da afinidade (e do incesto) que se estrutura em torno do desaninhador de pássaros.


8. “Dialética” — dos gdes e pequenos intervalos no CC; da abertura e do fechamento, do continente e do conteúdo… (MC: 80, 93, 168; PJ); do perto e do longe (OMT). Poderíamos acrescentar, então: dialética da progressão e da regressão, da linha que sobe e da linha que desce… O mel e o veneno, paradoxais, sedutores (MC 102, 143, 185): a mitologia regressiva do MC e a progressiva do CC: as duas linhas.


9. Sobre os limites internos ou o lado escuro da lua estruturalista. Se a mitologia ameríndia possui um direito e um avesso, um sentido progressivo e outro regressivo, como afirma CLS repetidas vezes na tetralogia, então o xamanismo e o perspectivismo pertencem sem dúvida ao mundo do sentido regressivo-avesso. Pois se temos o complexo do fogo de cozinha, com: disjunção céu-terra + periodicidade + especiação; então teremos, no caso do xamanismo perspectivista: confusão cromática auroral céu-terra (viagem xamânica) + caráter humano dos animais [ver M375 in HN p.368]. A refinar, aqui, a questão do caráter regressivo em um contexto de “tabaco” (xamanismo etc.) mais que de “mel”. Notar que em algum lugar CLS define a sobrenatureza, província do tabaco, como implicando uma concepção da natureza enquanto cultura. E registrar (dar págs.) por fim as inúmeras vezes, a partir de MC até HN, que se fala em “movimento retrógrado”, “démarche regressive” etc. dos mitos.


10. As Mitológicas como o “mito da mitologia”, mas no sentido de uma versão helênica, eleática em particular (o contínuo e o discreto) da mitologia ameríndia. A leitura lévi-straussiana estaria necessariamente oferecendo, assim como o Édipo de Freud é uma versão do mito de Édipo grego, uma versão greco-metafísica dos mitos indígenas? Como essa leitura da leitura lévi-straussiana fica “implícita-explícita” no livro de Schrempp sobre a cosmologia maori. Ver aqui também a “mythologie blanche” de Derrida.


11. Histoire de Lynx: Quelle est en effet l’inspiration profonde de ces mythes? Notre schéma [acima na pág. original] l’éclaire. Ils représentent l’organisation progressive du monde et de la société sous la forme d’une série de bipartitions; mais sans qu’entre les parties résultantes à chaque étape apparaisse jamais une égalité véritable: de quelque façon, l’une est toujours supérieure à l’autre. De ce déséquilibre dynamique dépend le bon fonctionnement du système qui, sans cela, serait à tout moment menacé de tomber dans un état d’inertie. Ce que proclament implicitement ces mythes, c’est que jamais les pôles entre lesquels s’ordonnent les phénomènes naturels et la vie en société: ciel et terre, feu et eau, haut et bas, près et loin, Indiens et non-Indiens, concitoyens et étrangers, etc., ne pourront être jumeaux. L’esprit s’évertue à les coupler sans réussir à établir entre eux une parité. Car ce sont ces écarts différentiels en cascade, tels que les conçoit la pensée mythique, qui mettent en branle la machine de l’univers. (1991: 90-91).

Notar a semelhança estreita dessa passagem, e de todo o raciocínio central da HL, com o parágrafo final do HN, p. 621, onde se lê que a macro-oposição inicial é entre ser e não-ser, que se desdobra em uma série ilimitada, de escopo cada vez menor, de oposições binárias... Notar que a análise de Asdiwal usava a mesma idéia de mediação impossível entre oposições decrescentes (ASII: 191 p.ex.; ver tb. P. Smith in Enciclopedia Universalis), idéia que já se acha em "A Estrutura dos Mitos" (ver AS: 248, 254; ver artigo 'mythe' de Ricœur na E. Universalis), onde isso se associa à idéia de que o mito procura resolver contradições, tarefa infinita, donde sua tendência à repetição em espiral etc.… Todo o problema aqui das duas linhas, a do rito e a do mito, que se movem em direções opostas — alguma relação possível com as duas linhas de meu diagrama? As duas linhas de CLS se referem ao contínuo e ao discreto.

NB. N’A Gesta, não se devem confundir as oposições decrescentes internas ao mito com o enfraquecimento das oposições de uma versão do mito para outra (ASII: 223).

Notar também que o desequilíbrio perpétuo do casamento avuncular e do mito tupinambá (ou melhor, da ideologia bipartite panamericana) se aproxima da “relação desequilibrada” (Paroles Données p. 13) que é a fórmula canônica, e que CLS aplicou ao canibalismo em PD.

Ver os vários avatares do conceito de desequilíbrio perpétuo nas Mythologiques. Por exemplo na OMT p. 406: “Même quand la structure change ou s’enrichit pour surmonter un déséquilibre, ce n’est jamais qu’au prix d’un nouveau déséquilibre qui se révèle sur un autre plan. Nous constatons une fois de plus que la structure doit à une inéluctable dissymétrie son pouvoir d’engendrer le mythe, qui n’est rien d’autre qu’un effort pour corriger ou dissimuler cette dissymétrie constitutive”. Ou no HN p. 89: “Comme en Amérique du Sud (MC p. 222 [“Le déséquilibre est toujours donné…’]), un déséquilibre dynamique se manifeste donc au sein du groupe des transformations…” Aqui como no MC o contexto é o de uma mitologia regressiva (mel, sal), o paradoxo de uma cozinha crua, etc. Ou ainda no HN p. 278, sobre o equilíbrio instável e dinâmico imitação-diferenciação entre mitos de populações vizinhas. E evidentemente a passagem capital de HN 539-40.

Comentar, em geral, a tese de L. Scubla no artigo publicado emL'Homme 135. Recordar que Scubla (op.cit. p. 54) menciona explicitamente a aparente contradição entre o processo mitico de resolução de contradições pela convergência assintótica das polaridades e o propósito mtico de gerar afastamentos diferenciais máximos.

O tema da exclusão recursiva e asintótica de um pólo por outro, dentro de uma oposição, é um tema recorrente em CLS, — extravazando de muito sua atribuição à ‘ideologia bipartite ameríndia’, em outras palavras —, desde o último parágrafo de HN até, p.ex., essa antiga observação metodológica que se lê na "Introdução à obra de Marcel Mauss": “na própria medida em que a distinção teórica é impossível, pode na prática ser levada bem mais longe, até tornar um de seus termos negligenciável, pelo menos em relação à ordem de grandeza da observação. Uma vez feita a distinção entre objeto e sujeito, o próprio sujeito pode de novo desdobrar-se do mesmo modo, e assim por diante, de maneira ilimitada, sem ser jamais reduzido a nada” (p.17). O destaque da etnologia no cenário das ciências do homem estaria em apresentar concreta e experimentalmente isto que CLS chama de processo ilimitado de objetivação do sujeito, a capacidade de expelir frações objetivas e sempre decrescentes de si mesmo.


12. Sobre o contraste entre a relação como pura conexão ou como conexão disjuntiva. Esse contraste aparece na diferença que a HL divisa entre as mitologias indo-européias e ameríndias da gemelaridade. Os gêmeos indo-europeus seriam, ou totalmente semelhantes (identidade absoluta, auto-relação), ou completamente antagônicos (alteridade absoluta, não-relação), ao passo que os gêmeos ameríndios tenderiam a uma alteridade relativa, isto é, a uma relação de conexão-separação. [Evocar o resumo em PD aqui]. As dualidades indìgenas sugerem uma concepção do dois não como o Um se desdobrando, mas como o múltiplo se contraindo: o dois é o mínimo do múltiplo? Contra isso, HL p. 92: "La sentence fatidique, d’où cette discussion est partie, se ramène en fin de compte à l’affirmation implicite que toute unité renferme une dualité, et que, quand celle-ci s’actualise, quoi qu’on désire et quoi qu’on fasse, il ne peut y avoir d’égalité véritable entre les deux moitiés." A favor disso, talvez, as longas passagens de OMT sobre as décadas como multiplicidade contínua que é preciso dividir por dois para chegar/voltar ao discreto. Pensar melhor tudo isso. Lembrar que as PD (p. 71-2) e a OMT falam do caráter maléfico da multiplicação por 2 para os ameríndios (cp. com o “caráter maléfico da simetria”, in HL), a negatividade dos grandes números (as décadas como infinito) e a negação do devir, versus os Romanos de Dumézil etc. Imaginar que esse caráter maléfico do 2 e os gêmeos… Distinguir assim uma multiplicação por 2 de uma divisão por 2?

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